quinta-feira, 25 de junho de 2009

MORTALHA


MORTALHA



Cobri os muros
Da minha casa com pixe.

Vi escorrer,
Pelos veios dos tijolos,
O negrume da solidão.

Tranquei os portões.

Sequei árvores,
Arranquei a grama.
Fiz-me estátua no chafariz
Sem água.

Espero o sol
Derreter a pele negra
Que a mim amordaça.

(Fátima Venutti)

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Acrílica sobre tela - Renata Rosa (Paraty)




ABREVIAR


Tira essa camisa
E vem cobrir meu corpo
Com tua pele,
Teu desejo,
Teu suor
E teus versos

Esquecidos.



Vem alimentar
Minha boca
Com teus beijos
Ardentes
E teu hálito
De hortelã-capim.

Vem explodir
Em todo meu colo
O teu gozo,
Profano;
Desenhar
Em meu ventre
Todos os
Teus pecados

Vem deitar
Em minha alma
E deixar adormecer
Uma lua
Em brasa
Só pra mim.

(Fátima Venutti)





Há uma célula em mim
abrindo segredos,
exigindo verdades,
gritando desejos...

Talvez,
esteja na hora de partir-me
e tornar-me plural...
(Fátima Venutti)


"Sintaxe"


quem sou
senão o nada
do acaso
abandonado
na pia batismal
??

Que faço
dos meus medos
se me perco
em meu próprio
ventre oco, seco
Pura metáfora
??

Que inércia
me toma e
me afunda
na lama podre
do desejo
de morrer
??

Quê??
Cor do texto

(Fátima Venutti)




E era assim que era pra ser...


(Fátima Venutti)

terça-feira, 23 de setembro de 2008

VOCÊ




VOCÊ


Edson Alves

QUERO SENTIR O SEU SUOR EM CIMA DE MEU CORPO
E ME LAMBUZAR EM DELÍRIOS COM SEU CHEIRO

QUERO SENTIR A TEMPERATURA DE SEU CORPO
SUBIR COM APROXIMAÇÃO DO MEU

QUERO SUGAR OS SEUS SEIOS
E ME ENTREGAR A SEUS BEIJOS

QUERO TE AMAR
COMO SE FOSSE A ÚLTIMA MULHER DO MUNDO
MEU DESEJO EXPLODE
QUANDO PENSO EM SEU CORPO.

MINHA ALMA VIBRA
QUANDO SEI QUE SOU SEU E VOCÊ É MINHA


quinta-feira, 18 de setembro de 2008



MURALHAS

Fátima Venutti





Hoje,
Resolvi sobrevoar muralhas.

Pés descalços,
Sangrei centímetros lineares
Tijolos sobrepostos no silêncio calcificado.
Verdades aterradas no concreto
Uma a uma, amordaçadas.
Inválidas cinzas.

Avistei-me ao centro,
Enclausurada,
Na sombra de meus sonhos
E teias que desconstruí.
Emaranhada em memórias,
Fartas insígnias
De outonos esquecidos.

Passo a passo
No equilíbrio do vento
Circundei minh’ aura
Ao sentir passar o tempo
À minha frente
(outrora no centro,
Ninho de esperas)
Revi gastas batalhas,
Perdas e enganos incontados.
Refiz planos flagelados
Encontros engasgados
E esqueci de mim,
Numa chuva rasante qualquer
Num tempo sem nome
Sem presença,
Sem existência de lugar
E de mim.

Sobre a muralha,
Miro os passos,
Carimbo dos sonhos enterrados,
Marcados a fogo
Na terra batida, num verão qualquer.
Pássaro-preto rouba-me as chaves
E despede-se,
Num fio de azul,
Da minha infância.
No pátio da clausura,
Minha sombra se desfaz,
Com ela, a muralha de meu fardo.
...

Hoje,
Aprendi a ser só.




sábado, 13 de setembro de 2008




GUERREIRA

Fátima Venutti




Corre, corre...
Acorda cedo, filhos pra escola,
Trabalho, pega filhos, carinho...
Correria caseira, deixa filhos,
Ausência... saudades... descanso.
Descanso?

A vida sempre lhe trouxe a luta.
Poucos sonhos mutilados,
Outros tantos engavetados
Brotou a árvore, gerou seus filhos,
Sua vida é seu próprio livro
Mas no fundo, quer mais.
Sempre mais,
Mais do que essa vida quer lhe dar?

Questiona. Duvida. Desconfia.
Mas sempre, indiscutivelmente.
Mulher. Humana. Carente
Tantos sonhos mutilados,
Muito mais engavetados.

Guerreira...
Eterna águia a planar os sonhos,
Navegar em seus planos,
Encontrar seus amores.
Paixão...
Guerreira...
Mulher Guerreira...

sexta-feira, 29 de agosto de 2008


Ao amor que chegou...
Cola teu corpo ao meu
invade mimh'alma e reclama
todos os beijos,
todos os cheiros,
todos os gostos e gozos
que somente a ti pertencem.
Cola teu corpo ao meu.
Fica, amor,
adormece tu'alma em meu ventre
e atravessa o portal da felicidade.
Já não estamos mais sós.
Eu em tu,
Tu em mim.
Único desejo.


sexta-feira, 22 de agosto de 2008



DIÁRIO

Fátima Venutti


Esvaziou-se o olhar.

Permaneceu
Somente o vazio da retina.
Atrevi-me em buscar
Uma última linha de dor
Tardiamente.

Reflexo do cotidiano
Avesso às regras
E de invertidos papéis.

Sob o cinza do asfalto
Gélido e ignóbil,
Ferragens contorcidas
Nas vidas desligadas
Dos corpos ensacados.
Há um preço?
Que preço?

Perplexa visão matinal.
Estampa do diário
Urbano e contemporâneo.
O preço do prazer
Ditando as regras
Silenciando vidas,
Sorteando perdas e lágrimas
Aos que ficam e
Acordam com o silêncio.
A imagem estampada
Na capa.
Quem vai querer?
Na sinaleira custa R$ 1,50

Missa de 7º Dia.
A Seção de Cartas
Ainda discute:
A favor ou contra.
Ainda pagamos
Diariamente
Por algumas vidas.
Alguém sente?
A que preço?